As primeiras experiências de funcionamento da banca no espaço público da cidade aconteceram em 2007, na orla do Guaíba, próximo à Usina do Gasômetro, e em 2011, na Praça da Alfândega e no Bairro Tristeza. Nessas ocasiões A Carroça circulou no entorno dos espaços que sediavam os eventos culturais aos quais sua presença estava vinculada. A ressonância que essa proposição encontrou nas ruas tornou-se evidente no engajamento dos passantes e nos desdobramentos vivos que os encontros suscitavam. Depois de uma primeira aproximação casual, muitas pessoas voltavam semanalmente para conversar, contribuir com algo seu que acreditavam pertencer ao universo da Carroça, contar mais uma história, levar mais um postal, oferecer fotografias de seus acervos domésticos, trazer um parente ou amigo, ou simplesmente ficar por ali, observando o movimento das ruas em companhia de amigos improváveis….

Além de acionar o improviso, a imaginação e a memória dos narradores de rua, colocar em curso indagações de ordem estética na confluência de palavras e imagens, da oralidade e da escrita, ficou claro desde esse início que a Carroça abria um espaço público de escuta, uma fresta para o encontro, onde relações de disponibilidade, confiança e empatia entre estranhos podiam florescer.

Os sinais de que era preciso prosseguir com os trabalhos eram muitos. Assim, a partir do encorajamento e da orientação generosamente oferecidos por outros ambulantes e trabalhadores atuantes no Parque da Redenção e entorno,[i] em março de 2013 a banca passou a funcionar como um ponto de comércio regular, abrindo quinzenalmente no parque.[ii]

Ao longo desses cinco anos de histórias e encontros férteis, a Carroça gerou ao seu redor uma rede aberta e multidisciplinar de apoios e colaborações. Hoje, o trabalho voluntário dessas pessoas – a quem carinhosamente chamamos de “carroceiros”[iii] – dá sustentação a boa parte das atividades do Armazém, sendo responsável por todas as atividades de rua, que vão desde limpar e empurrar a Carroça, levá-la e trazê-la do estacionamento ao parque e vice-versa, encher pneus murchos, consertar rodas estragadas, montar e desmontar os produtos exibidos para venda a cada sessão, acolher e conversar com clientes, escutar suas histórias e seus silêncios, além de documentar em textos, sons e imagens o cotidiano das saídas. Também é essa equipe que lê, classifica, digitaliza, cataloga, embala e etiqueta os textos e imagens recebidos na rua. Na companhia uns dos outros, compartilhamos as inquietações que os encontros produzem, pensamos estratégias de trabalho, preparamos e operacionalizamos a divulgação das atividades da banca, desdobramos reflexões teóricas em torno do processo e, acima de tudo, inventamos juntos um chão por onde andar.

Como parte dessa rede, cabe ressaltar o compartilhamento vivo com membros do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura da UFRGS (NUPPEC-UFRGS), em diferentes espaços de estudo e conversa, sejam eles formais e informais. Ao longo dos anos, a Carroça teve também a alegria de receber muitos convites para conversar, pra relatar suas andanças em encontros, palestras, aulas, seminários e mesas de debate públicas com ênfase em áreas tão variadas como Artes Visuais, Letras, Psicologia, Educação, Arquitetura, Patrimônio, Cidadania e Espaço Público. Cada oportunidade de diálogo tem tido um valor constitutivo para o território híbrido no qual a Carroça opera, ampliando seus horizontes.

Proposições como o Armazém de Histórias Ambulantes podem ser descritas como “processos abertos de conversação e improvisação […] onde a produção estética está associada ao desenvolvimento de modos experimentais de coexistência”. O cotidiano da Carroça se faz nesse encontro de diferentes saberes, grupos e agentes sociais, em um coletivo horizontal, tecendo com o contexto, com as circunstâncias, com a cidade. Na fricção com o que vem da rua, com o inesperado, a vida da Carroça vem se fazendo desse entrelaçamento de muitas mãos e vozes.

“Pra trabalhar na rua, de ambulante, tem que gostar de conversar, tem que gostar de gente”, aconselhou sabiamente Dona Cleonice, em 2006, quando nos vendeu seu antigo carrinho de cachorros-quentes. Já se passaram mais de dez anos desde esse impulso inicial. Quase onze anos de uma insistência tateante. Outonos, invernos, primaveras e verões de aventuras e tropeços: pneus furados, tardes cheias, tardes vazias, dias de sol e dias cinzas, de calor sufocante ou de muito frio, de vento fraco, garoa ou ventania. Um curso extenso de aprendizado com a incerteza, um curso de invenção do presente.

Além de encontrar a Carroça na rua e fazer negócios em nossa banca no parque – ou em algum dos nossos pontos de itinerância – você pode tomar parte do projeto entregando suas contribuições (fotografias e textos) diretamente na caixa postal localizada no saguão de entrada do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Você também pode mandar seu material por correio. Endereçar para:

Armazém de Histórias Ambulantes

A/C Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre

Av. Érico Veríssimo, 307

CEP 90160-181, Porto Alegre (RS)

 

Recebemos:

  • fotografias descartadas ou fotografias que não deram certo; de preferência, fotografias analógicas, 10x15cm. não colocamos em circulação fotografias retratando pessoas;
  • escritos de gaveta: vale toda forma de escrita: poesia, conto, carta, crônica, sonho, lista, confissão, anotação, fragmento, recado, segredo, relato, memória etc. a autoria pode permanecer anônima ou não, a escolha é do escritor.

Cada item recebido é catalogado, processado e embalado com cuidado por nossa equipe de carroceiros. Posteriormente, todo o material recebido passa a fazer parte do acervo da Carroça, para que possa ganhar uma nova circulação.