Histórico

“Como começou esse negócio? De onde veio essa ideia? De quantos começos se faz uma história?

Além de acionar o improviso, a imaginação e a memória dos narradores de rua, colocar em curso indagações de ordem estética na confluência de palavras e imagens, da oralidade e da escrita, ficou claro desde esse início que a Carroça abria um espaço público de escuta, uma fresta para o encontro, onde relações de disponibilidade, confiança e empatia entre estranhos podiam florescer.

Os sinais de que era preciso prosseguir com os trabalhos eram muitos. Assim, a partir do encorajamento e da orientação generosamente oferecidos por outros ambulantes e trabalhadores atuantes no Parque da Redenção e entorno,[i] em março de 2013 a banca passou a funcionar como um ponto de comércio regular, abrindo quinzenalmente no parque.[ii]

Ao longo desses cinco anos de histórias e encontros férteis, a Carroça gerou ao seu redor uma rede aberta e multidisciplinar de apoios e colaborações. Hoje, o trabalho voluntário dessas pessoas – a quem carinhosamente chamamos de “carroceiros”[iii] – dá sustentação a boa parte das atividades do Armazém, sendo responsável por todas as atividades de rua, que vão desde limpar e empurrar a Carroça, levá-la e trazê-la do estacionamento ao parque e vice-versa, encher pneus murchos, consertar rodas estragadas, montar e desmontar os produtos exibidos para venda a cada sessão, acolher e conversar com clientes, escutar suas histórias e seus silêncios, além de documentar em textos, sons e imagens o cotidiano das saídas. Também é essa equipe que lê, classifica, digitaliza, cataloga, embala e etiqueta os textos e imagens recebidos na rua. Na companhia uns dos outros, compartilhamos as inquietações que os encontros produzem, pensamos estratégias de trabalho, preparamos e operacionalizamos a divulgação das atividades da banca, desdobramos reflexões teóricas em torno do processo e, acima de tudo, inventamos juntos um chão por onde andar.

Como parte dessa rede, cabe ressaltar o compartilhamento vivo com membros do Núcleo de Pesquisa em Psicanálise, Educação e Cultura da UFRGS (NUPPEC-UFRGS), em diferentes espaços de estudo e conversa, sejam eles formais e informais. Ao longo dos anos, a Carroça teve também a alegria de receber muitos convites para conversar, pra relatar suas andanças em encontros, palestras, aulas, seminários e mesas de debate públicas com ênfase em áreas tão variadas como Artes Visuais, Letras, Psicologia, Educação, Arquitetura, Patrimônio, Cidadania e Espaço Público. Cada oportunidade de diálogo tem tido um valor constitutivo para o território híbrido no qual a Carroça opera, ampliando seus horizontes.

Proposições como o Armazém de Histórias Ambulantes podem ser descritas como “processos abertos de conversação e improvisação […] onde a produção estética está associada ao desenvolvimento de modos experimentais de coexistência”. O cotidiano da Carroça se faz nesse encontro de diferentes saberes, grupos e agentes sociais, em um coletivo horizontal, tecendo com o contexto, com as circunstâncias, com a cidade. Na fricção com o que vem da rua, com o inesperado, a vida da Carroça vem se fazendo desse entrelaçamento de muitas mãos e vozes.

“Pra trabalhar na rua, de ambulante, tem que gostar de conversar, tem que gostar de gente”, aconselhou sabiamente Dona Cleonice, em 2006, quando nos vendeu seu antigo carrinho de cachorros-quentes. Já se passaram mais de dez anos desde esse impulso inicial. Quase onze anos de uma insistência tateante. Outonos, invernos, primaveras e verões de aventuras e tropeços: pneus furados, tardes cheias, tardes vazias, dias de sol e dias cinzas, de calor sufocante ou de muito frio, de vento fraco, garoa ou ventania. Um curso extenso de aprendizado com a incerteza, um curso de invenção do presente.

Além de encontrar a Carroça na rua e fazer negócios em nossa banca no parque – ou em algum dos nossos pontos de itinerância – você pode tomar parte do projeto entregando suas contribuições (fotografias e textos) diretamente na caixa postal localizada no saguão de entrada do Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre. Você também pode mandar seu material por correio. Endereçar para:

Armazém de Histórias Ambulantes

A/C Atelier Livre da Prefeitura de Porto Alegre

Av. Érico Veríssimo, 307

CEP 90160-181, Porto Alegre (RS)

 

Recebemos:

  • fotografias descartadas ou fotografias que não deram certo; de preferência, fotografias analógicas, 10x15cm. não colocamos em circulação fotografias retratando pessoas;
  • escritos de gaveta: vale toda forma de escrita: poesia, conto, carta, crônica, sonho, lista, confissão, anotação, fragmento, recado, segredo, relato, memória etc. a autoria pode permanecer anônima ou não, a escolha é do escritor.

Cada item recebido é catalogado, processado e embalado com cuidado por nossa equipe de carroceiros. Posteriormente, todo o material recebido passa a fazer parte do acervo da Carroça, para que possa ganhar uma nova circulação.