diários da Carroça (2)

“Qual o perfil dos clientes da Carroça? Quem chega pra contar histórias pra vocês? Quem ainda tem tempo pra ficar conversando na rua com estranhos, no meio da tarde, num dia de semana?”

Essas são perguntas que muita gente faz quando ouve falar do Armazém de Histórias Ambulantes pela primeira vez.

Cada contexto por onde já circulamos desde dezembro de 2006 tem uma geografia própria, com seus fluxos, hábitos e frequentadores. A vida de rua e a disponibilidade para se relacionar na orla do Guaíba é diferente da Praça da Alfândega, que é diferente da Redenção nas quartas, que é diferente da Redenção aos sábados, que é diferente de uma troca de turno em frente a uma escola municipal, que é diferente do fluxo em frente a um hospital, que é diferente de uma feira de artesanato no pátio de um hospital, que é diferente de uma manhã de domingo na Feira do Livro. Cada tempo e lugar tem seus ritmos, gestos, olhares e posições. A seleção de anotações a seguir conta um pouco mais sobre os caminhos que a Carroça tem trilhado e como o rumo dessas andanças foi sendo desenhado por esses encontros e essas atmosferas.

*

discretamente óbvio: a Carroça coloca-se à disposição nos espaços públicos de maneira explícita, porém discreta, evitando o discurso apelativo, típico do universo da publicidade. além do letreiro pintado no corpo da carrinho, que indica nosso ramo de atuação – “histórias ambulantes” –, costumamos também posicionar no entorno da banca um quadro negro de anúncios em forma de cavalete. o texto escrito a giz é simples e direto, e vai se modificando de tempos em tempos. cada carroceiro ou cliente sugere um tanto, e vamos criando as chamadas juntos: “chega mais freguesia”, “não é churros, não é pipoca!”, “você tem história pra contar?”.

curiosidade, desencontros e selfies: a primeira aproximação dos passantes costuma se dar de forma espontânea, a partir da curiosidade ou do engano. percebemos que algumas pessoas são atraídas por nossa placa e se acercam da banca com curiosidade, enquanto outras nem chegam a lê-la. é comum que a Carroça seja abordada por pessoas em busca de água, refrigerantes ou pipoca, ou então para trocar dinheiro. consideramos esse desencontro aparente como um sinal positivo de que estamos bem sintonizados com o ambiente da rua. são frequentes, também, as situações em que percebemos que a Carroça é capturada como elemento visual da paisagem urbana. alguns transeuntes em passeio fotografam a Carroça com seu celular ou fazem uma selfie incluindo a Carroça no enquadramento, à média distância, sem jamais chegar perto o suficiente para estabelecer um contato visual direto ou entabular um diálogo com xs carroceirxs de plantão.

antes da escuta: trabalhar como atendente na Carroça é um exercício de delicadeza. é preciso atentar para as sutilezas no jeito como cada cliente em potencial chega, é preciso abrir-se para escutar antes mesmo da escuta, antes mesmo de qualquer palavra ser dita. porque a conversa começa no olhar, no jeito de mover o corpo, de chegar perto demais ou se esquivar, de interpelar ou silenciar.

sala de estar: “o que é isso?”, “como funciona?”, “quanto custa?”, “o que é mesmo que vocês vendem?”. cada pessoa que se aproxima é um chamado à invenção. como apresentar nosso negócio? como lançar o fio e estender a conversa? como respeitar os tempos e jeitos de cada um entrar no jogo da linguagem? será que uma carroça na rua pode ser uma sala de estar sem paredes? um lugar de hospitalidade, onde todxs se sintam bem-vindxs?

*

vento no triângulo de mel: era um dia cinza de outono, um abril especialmente frio e ventoso de 2011 e trabalhávamos no entorno da Praça da Alfândega, que nessa época estava fechada para reformas. a Carroça estava estacionada no triângulo formado entre a sede de dois bancos, uma banca de revistas, a poucos metros do quiosque que tradicionalmente vende mel nesse local. esperávamos que alguém chegasse, mas o tempo não parecia promissor. eu me perguntava se deveria ter ido pra rua em um dia de meteorologia tão desfavorável. nesse momento pensei sobre a importância da proximidade da banca do mel. o tempo passava lento e os clientes não apareciam. me distraía com devaneios e deliberações sobre o vento, o outono, a fragilidade da rua, das abelhas e desse projeto de sobrevivência. decidi que tudo estava bem, que o melhor da vida seria salvo dos tempos sombrios pela presença radical da doçura, que o mel nos protegeria do pior. foi quando ela se aproximou da Carroça com passos firmes e se instalou à minha frente.

“eu tenho história”: chegou diferente da maioria dos clientes que tivéramos até então. chamava a atenção pela postura corporal altiva e pela vivacidade do olhar. guardei na memória seus olhos grandes, bonitos, compenetrados, intensos. percebi que ela olhou pra tudo em volta com certa urgência. leu em voz baixa nosso quadro de anúncios, “você tem história pra contar?”, e de imediato declarou em voz alta: “eu tenho história. conto onde? pra quem?”

uma bolha: convidei-a pra sentar e assim ficamos, frente a frente, a pouco menos de um metro de distância. não tenho dúvidas de que ali no meio da rua armou-se uma bolha, quase pude tocar sua membrana. ficamos dentro dela por algumas décadas, ou quem sabe séculos, um tempo longo demais pra contar no relógio, ou em algumas linhas. um tempo longo demais pra se contar.

dois banquinhos e o mar: tudo veio misturado em um jorro: a juventude, os primeiros anos de maternidade, as perdas, a superação, a luta pela sobrevivência, o amor, a luta contra o preconceito, a superação, a alegria e a trabalheira de criar os filhos, a vida de trabalho no hospital, a superação, os desafios e descobertas da maturidade, a fé, a desesperança e a superação. por trás das lentes dos óculos, os olhos negros molhados, muito abertos. dos olhos dela transborda tanta coisa, eu pensei. os olhos dela dizem bem alto, bem mais alto que a voz. olhos de desejo por mais vida. em algum momento nossa conversa virou um mar, e ficamos assim: nossos dois banquinhos e a Carroça – pequena embarcação – em algum ponto do oceano entre a costa da África e o sul do Brasil.

“o que tu vais fazer com isso?”: depois do mar, Rosa decidiu-se por levar uma fotografia com céu e muito sol, uma afirmação do calor e da esperança. em seguida me perguntou o que eu iria fazer com a história que me contara, queria saber se eu a escreveria. nesse momento eu soube que a Carroça seria sempre um exercício de coragem com a verdade. respondi: “não sei”. expliquei que não era jornalista, escritora ou algo do gênero. contei que era apenas escutadora. que estava ali pela aposta nos encontros. disse que me sentia honrada em poder escutá-la e aprender com ela, que estava comovida e grata pela nossa conexão, pela confiança, pela abertura. também disse que achava que todas as pessoas do mundo deveriam poder conhecer e ser tocadas pela história de vida dela, e que me sentia incapaz de fazer essa tarefa.

palavra-presente: apesar de acolher com compreensão e empatia minha confissão de impotência, senti uma ponta de decepção no olhar da minha interlocutora. a conversa seguiu e me ocorreu perguntar se ela já havia pensado em escrever suas histórias. “eu escrevo desde sempre”, ela disse, “faz muitos anos, desde guria, mas nunca pensei em escrever minha história assim como te contei aqui. eu escrevo poesias, escrevo poesias sobre o que me acontece. tu quer ler?”.  

uma Rosa: combinamos de nos encontrar para ler as poesias na quarta-feira seguinte, na Carroça. ela chegou no início da tarde com um envelope pardo de baixo do braço, recheado de folhas de caderno manuscritas e outras folhas soltas e amareladas com textos datilografados. alguns textos haviam sido escritos há muitos anos; outros, há poucos dias. de novo os dois banquinhos, e começamos a ler juntas em voz alta. dali a pouco, foram se achegando outras pessoas.

– o que vocês estão lendo?

– poesias.

– de quem?

– da Rosa Maria, a autora está bem aqui.

uma roda: formou-se uma roda de passantes curiosos, primeiro escutando, depois engatando na conversa. uns compartilhavam suas impressões sobre a poesia da Rosa, faziam associações, devaneavam, outros contavam da sua própria história com as palavras escritas. quase todo mundo escrevia um pouco, ou muito, ou gostaria de saber escrever. alguns confessaram que mantinham diários íntimos, que escreviam pra desabafar, outros em cadernos escondidos, folhas soltas em gavetas com alguma ideia rascunhada e o sonho frustrado, inatingível, de ser escritor. nos perguntamos juntos o que era saber escrever? quem sabia? como se formava um escritor? cada história surgiu nessa tarde! e eu também fui me desinibindo com essa Rosa que se abriu na roda. ao longo da tarde de conversas, não pude mais esconder de mim mesma, e dos amigos novos, algo que nem mesmo minha família ou melhores amigos sabiam: eu também escrevia poesias escondida, há muitos anos, só pra mim, e morria de vergonha delas. que encontro libertário! a energia e o desejo da Rosa me encorajavam a compartilhar segredos e sonhos. ao final da tarde perguntei, nervosa, se ela aceitaria ser minha primeira leitora. (abril-maio 2011)

um sim: um sim selou o início de nossa relação de amizade, admiração e apoio mútuos, relação que logo se transformou também em uma parceria de trabalho. inicialmente nosso desejo compartilhado era encontrar uma forma de fazer circular os poemas de Rosa – e de quem mais sentisse esse mesmo desejo – na Carroça. escolhemos juntas em torno de trinta poemas. sugeri que utilizássemos o formato de envelopes fechados, o que nos pareceu bonito por evocar o universo das cartas. faríamos uma edição de um único exemplar para cada poema.

escritos de gaveta: cada texto seria envelopado e cada etiqueta estamparia somente um pequeno recorte do escrito contido em seu interior, um traço breve eleito para colocar o texto em suspensão, um estratégia para a passagem de ar. também decidimos guardar a revelação da autoria como uma surpresa no interior do envelope, e também reservar ao autor de cada escrito a decisão de assinar ou não seus escritos. aos leitores seria entregue um convite para uma aventura, pra um encontro íntimo e quase às cegas, como o próprio ato de falar, ou de escrever. foi dessas pequenas decisões compartilhadas em torno de uma mesa de café que nasceu a segunda linha de produtos da Carroça, uma coleção que chamamos, carinhosamente, de “escritos de gaveta”. (entre 2011- 2012)

 *

outros planos: Rosa não chegou a desfrutar plenamente das ressonâncias que sua escrita produziu entre os leitores nas ruas. foi atender a outros chamados, escrever em outros planos. nunca soube, por exemplo, que uma jovem estudante se encantou com sua voz e caligrafia depois de conhecer a Carroça e comprar, por acaso, duas de suas poesias. nunca soube que essa jovem passou a andar acompanhada por ela, que sonhava em conhecê-la, que imaginava que a via em paradas de ônibus pela cidade, que passou a escrever essas cenas em folhas soltas nos trajetos entre as aulas, a casa e o trabalho, e que roubava qualquer cinco minutos de intervalo pra vir entregar esses escritos na Carroça.

outras histórias: a Carroça não sabe muito além do que próximo metro de chão. cada poro dessa rede viva respira através dos encontros. espalhamos envelopes de palavras-sementes pela estrada sem saber que frutos estranhos virão com o tempo, com o vento, nas tardes de espera e de chegadas súbitas. desde que começaram a circular pela cidade através da nossa banca, os escritos de gaveta se tornaram muito populares entre os clientes da Carroça. mais de 250 envelopes já passaram por nós, e estes, por sua vez, geraram um sem fim de novos encontros. alguns produziram torções inesperadas no rumo dos nossos negócios e alteraram a estrutura de funcionamento da nossa banca, mas isso já são outras histórias.

 

____________________________________________________________

Fragmentos escritos entre 2012 e 2017 por Ana Flávia Baldisserotto.