diários da Carroça (1)

A gente pode não ter dinheiro, mas uma história, todo mundo tem.

Como começou esse negócio? De onde veio essa ideia? De quantos começos se faz uma história?

Quem conhece a Carroça hoje, em 2017, em seu estágio atual de funcionamento, pode pensar que a banca foi concebida a partir de um projeto prévio, que se trata de uma construção com unidade conceitual, com estrutura de propósito desde o início. Mas afirmar isso seria um engano esterilizante. Pois o que hoje chamamos de Armazém de Histórias Ambulantes nasceu de um movimento muito particular do desejo. A Carroça é um empreendimento amoroso, e como todo caso de amor, é um negócio difícil de explicar. É da ordem da pulsação: uma mistura de curiosidade, aventura, perplexidade e acaso. Seguem aqui fragmentos dos diários de bordo dos primeiros anos da Carroça. Essa seleção de anotações narra algumas das situações e dos encontros que produziram as condições iniciais para os trabalhos da banca.

um sonho e dois cheques pré-datados: antes veio a admiração intensa por todas as formas de comércio ambulante, e pelos diferentes veículos usados para este fim. o objeto do desejo estava exposto no pátio de uma residência no Bairro Chácara, em Eldorado do Sul (RS). exibia uma pequena placa: “vende-se”. o valor não era impossível. por que não comprar o carrinho? só porque não sabia o que fazer com ele e não sabia onde guardá-lo? o encorajamento de minha amiga deu o empurrão que faltava. cedi ao impulso e paguei o sonho com dois cheques pré-datados.[1]

a primeira história: nos recebeu em sua casa com um sorriso aberto e olhos brilhantes. enquanto fechávamos o negócio, contou um pouco de sua rotina. trabalha em casa pela manhã: lava as roupas, cuida das filhas, acompanha os seus estudos, prepara o almoço, ao mesmo tempo assa e frita pastéis e outros salgados que vende à noite nos intervalos da aula. Dona Cleonice é uma mulher cheia de vitalidade. além de vender lanches na escola onde cursa o ensino médio, vem também aumentando a renda da família com a venda de lingeries. suas principais clientes são as vizinhas, familiares, colegas de aula e amigas. a carroça de cachorros-quentes ela usa mais esporadicamente, em finais de semana e dias de festa e feriados, quando dá mais movimento nas ruas de Eldorado do Sul. está pensando em expandir para um trailerzinho fixo, que pretende instalar em frente a uma fábrica de sua cidade. agora que suas filhas estão todas na escola, poderá trabalhar nesse ponto à tarde, vendendo lanches e bebidas para os trabalhadores em intervalo. sonha em ter mesas e cadeiras na calçada em torno do trailer, pra poder acomodar melhor os clientes. Dona Cleonice mobilizou em mim um sentimento imediato de admiração intensa: uma mulher brasileira, chefe de família, mestra na ginga e na coragem, na luta. apesar dos muitos perrengues familiares que também narrou, Dona Cleonice sabe que há uma coisa da qual não pode se dar ao luxo de abrir mão: da alegria de viver.

o resto é detalhe: a unidade branca de Dona Cleonice me pareceu linda desde o primeiro encontro. que graciosa promessa de autonomia e mobilidade! quando ela me perguntou o que eu pretendia vender e qual seria meu ponto, balbuciei alguma coisa vaga, constrangida pelo absurdo da situação: comprar o carrinho sem ter a mínima noção de onde iria trabalhar e, pior, nem mesmo do que vender! expliquei que eu não era do ramo, que era artista e professora de arte e pensava em expandir meu campo de atuação, que gostaria de trabalhar na rua, mas não sabia ainda como começar. Dona Cleonice é generosa, em poucos minutos de conversa me transmitiu orientações preciosas: como providenciar os alvarás, organizar a papelada, encontrar um bom ponto e, principalmente, como fazer e manter a clientela. ao final da nossa conversa, me tranquilizou: “na rua, o importante é ser simpático com os clientes, e estar sempre disposto a conversar. não te preocupa, vai dar certo, porque pra trabalhar na rua tem mesmo é que gostar de gente. muito cliente gosta mesmo é de parar para um papo, o resto é detalhe.”

sem rumo: surgiu a primeira oportunidade de dar início às atividades de rua.[1] o ramo de negócios em que a Carroça vai atuar ainda é nebuloso. que rumo tomar? o que vender na banca? como encontrar um produto que produza curiosidade, algum desejo, talvez, mas que seja, ao mesmo tempo, um suporte leve e quase dispensável? algo que roce na categoria das mercadorias mas não possua um valor de uso muito claro ou evidente. penso que um produto frágil será o ideal para abrir caminho para o sucesso da Carroça no campo das conversas de rua. como e onde encontrá-lo?

entre caixas de sapato: eu andava vagando pela casa em busca de uma direção para meu embrião de comércio quando abri uma gaveta cheia de pastas, envelopes empoeirados e caixas de sapato antigas. uma luz se acendeu bem ali. quem viveu o período da fotografia analógica deve lembrar que a cada filme de 24 ou 36 poses clicado, revelado e impresso, quase sempre havia uma cota de imagens que resultavam insatisfatórias. havia curiosidade e suspense na hora de buscar o envelope no laboratório: como será que ficaram as fotos?

limbo: fotografias superexpostas ou subexpostas, fora de foco, mal-enquadradas, nunca eram aceitas nos álbuns de família, porta-retratos ou outros postos dignos, mas eram muito comuns na era pré-digital. na minha casa, um pouco por um respeito quase temeroso que reservava à todas as imagens, e muito por inércia, essas fotografias foram se acumulando ao longo dos anos. transformaram-se em um excesso que eu fingia não existir, pra que nunca tivesse que lhes dar um rumo. mas, um dia, as caixas transbordam, as portas dos armários não conseguem mais fechar direito, os arquivos não dão mais conta, as gavetas não organizam mais. quando abri esses compartimentos de angústia, todo o limbo da lembrança se despertou como horizonte e promessa.

um negócio de visão: atualmente os processos de captura e armazenamento digital dominam o mundo, e poucas fotografias ainda são impressas, e quando o são, costumam passar por diversos processos prévios de edição. fotografias que não deram certo são um produto raro, são registros de uma cultura visual em extinção. penso que esse dado vai tornar a coleção de fotografias que não deram certo um acervo especialmente valioso da Carroça.

postais às avessas: o primeiro ponto de circulação da Carroça vai ser justamente nos arredores de uma das paisagens que é considerada um cartão-postal da cidade, a Usina do Gasômetro, na orla do Guaíba. penso que faz sentido oferecer aos turistas e transeuntes a oportunidade de adquirir postais. cada fotografia resgatada do limbo vai ser convertida em um cartão-postal único através de uma etiqueta adesiva colada no seu verso. serão cartões-postais às avessas. como essas imagens descartadas vão ser recebidas pelo olhar do público de nossos dias? será que esses fragmentos frágeis, esquecidos e refugados do mundo de outrem vão encontrar um lugar no mundo das trocas? [1]

o segredo do sucesso (nas ondas do rádio): aos poucos o negócio começa a tomar forma, mas ainda existe um ponto central e sensível em aberto: a precificação dos produtos. quanto cobrar pelos postais? um dia, por essas épocas, enquanto tentava escutar a previsão do tempo no radio, acabei topando com uma entrevista sobre marketing e negócios. “qual o segredo dos empreendimentos bem-sucedidos?”, perguntava o jornalista ao entrevistado. o tema de pronto capturou minha curiosidade. escutei a resposta com toda a atenção: “o segredo dos grandes empreendimentos bem-sucedidos é a alta qualidade e excelência em sua área de atuação. […] mas não basta ter qualidade, e inovação como valores, é preciso ambição. […] a ambição é um ingrediente essencial ao empreendedorismo”, dizia uma voz masculina, jovem, quase veloz demais. a modulação vocal expressava um misto calculado de entusiasmo, eficiência e profissionalismo competente: “pois é preciso persistência e é preciso saber que o que conta, acima de tudo, é que as empresas sejam percebidas pelos consumidores como portadores dessa qualidade. o marketing trabalha justamente com a construção dessa percepção pelo consumidor […]. por isso profissionais criativos, inovadores, que coloquem sua intuição à serviço do mercado, são cada vez mais valorizados pelas empresas”. não parei de pensar nessa entrevista durante semanas, tentando encaixar esse ponto de vista ao meu recém-nascido plano de negócios.

pororoca: de um lado a voz da rua, da experiência de Dona Cleonice; de outro, a voz do rapaz com MBA: uma pororoca. por obra do mistério, no encontro dessas águas, algumas ideias se clarearam. os produtos oferecidos inovariam, eu imaginava, ao recolocarem em cena fragmentos de memórias descartados, imagens precárias de um tempo recente demais para serem valorizadas como antiguidade, e obsoletas demais para serem valorizadas como linguagem. mas a grande inovação, na Carroça, será a modalidade de comércio: imagino experimentar um modelo de troca não monetária, um micromundo onde a palavra valha ouro, literalmente, e um pouco de disposição para o encontro pague a conta. porque o negócio da Carroça é estar na rua, entre as gentes. e a grandeza desse empreendimento será manter-se fiel a esse foco, ao ritmo das coisas pequenas, a esse tempo de meio-fio, das conversas cotidianas.

inovação e ambição: estabelecer um modelo de negócios democrático, inclusivo e libertário, em que qualquer forma de entrada no mundo da linguagem falada ou escrita possa ter um lugar. adotar um sistema de trocas singular, aceitando como pagamento todo e qualquer tipo de história, sem discriminação: histórias vividas, inventadas, alegres ou tristes, engraçadas ou trágicas, lidas, sonhadas ou escutadas, histórias sem começo, histórias sem fim, histórias boas ou ruins.

frio na barriga: tudo está pronto, ou quase. às vésperas de começar a trabalhar com a nova banca, sinto um frio na barriga. penso que tudo pode dar errado. faço uma lista de medos: ninguém vai se interessar pelos postais da Carroça, vão me tomar por doida, como vou explicar minha presença na rua para a fiscalização, ainda não tenho os alvarás, como vender imagens que não retratam cenas idílicas de pôr do sol sobre o rio, ou pontos turísticos da cidade, ou algo explicitamente belo, trágico ou engraçado? o que pode uma imagem dessa natureza? e esses nem são os piores problemas… porque mesmo que as imagens venham a encontrar interessados, talvez ninguém se disponibilize a pagar o preço. talvez, ninguém queira conversar com uma estranha na rua. em algum momento me dei conta de que talvez estivesse pedindo um valor alto demais.

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*(Declaração de uma passante anônima para a Carroça, em uma tarde de abril de 2011, Praça da Alfandega, Porto Alegre.)

(Fragmentos escritos entre setembro de 2006 e janeiro de 2007 por Ana Flávia Baldisserotto.)